por f. lara

studio toró é um exercício de pesquisa e pratica em arquitetura com ênfase nos espaços construídos debaixo de 1000 mm ou mais de precipitação anual

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manifesto das águas

Na América Latina temos o equivalente a um furacão Katrina todos os anos. O número de mortes decorrentes de inundações em áreas urbanas na regiao chuvosa que vai do sul do México ao norte da Argentina chega aos milhares, todos os anos. Na maior parte desta região onde vivem 500 milhões de pessoas, a maioria deles em cidades, a pluviosidade anual é normalmente acima de 1200mm. Não obstante, grandes cidades como Rio de Janeiro, São Paulo e Buenos Aires têm lutado para manter o abastecimento de água frente aos desafios de demandas crescentes e mananciais minguantes. Enquanto isso o aquecimento global vem exacerbar duas tendências: tempestades mais fortes e períodos mais longos de seca, fazendo com que a chuva seja duplamente problemática, quando cai e quando não cai. Enquanto soluções para o problema tem sido tradicionalmente abordadas na escala do urbanismo e políticas públicas, a escala da arquitetura tem inegavelmente uma contribuição importante..

 

 

 

O Studio Toró pretende tratar das enchentes urbanas para discutir de que forma edifícios individuais podem abordar a questão da água de uma maneira mais responsável.

O fato é que por 500 anos nós temos lutado com a estação chuvosa na América Latina, onde na maior parte da região a quantidade de chuva anual varia de 1000 a 1600 mm, podendo chegar a 2500 em algumas partes da Amazônia. Em partes populosas como o sudeste do Brasil (80 milhões de habitantes) a pluviosidade se concentra no verão, período em que chega a cair 300 mm por mês e não é incomum 100mm em um único dia. Se 18,000 litros podem cair em um único lote regular (12 X 30 M) durante uma tempestade de verão, pode-se imaginar o impacto deste volume no sistema de escoamento pluvial de qualquer cidade.

Em termos de perspectiva histórica, fica claro que os ibéricos que conquistaram a região 500 anos atrás nunca estiveram preparados para tanta água, advindo de lugares onde chove muito menos (500mm por ano em Lisboa,3 00mm em Madrid). Mesmo depois dos movimentos de independência no inicio do séc XIX, a tendência de importação de modelos continua, agora provenientes de Paris (600mm) ou Londres (750mm) ou cerca de metade da quantidade de chuva media anual das grandes cidades brasileiras. Basta olhar para qualquer edifício regular hoje em dia em qualquer região tropical para perceber nossa notável e explícita inabilidade em lidar com a chuva. Infiltrações de todo tipo são muito mais regra do que exceção. Em regiões de urbanização adensada que constituem a grande maioria das áreas residenciais de baixa-renda dos paises em desenvolvimento, o grau de impermeabilização do solo fica muito próximo de 100%, sendo mais alto quanto menor a área media dos lotes.

No entanto, o problema da impermeabilização do solo urbano não é exclusivo das áreas de baixa renda, e a verticalização faz com que quaisquer edifícios de apartamento, dos luxuosos condomínios aos conjuntos habitacionais resultam em altíssimos níveis de impermeabilização. Se é verdade que qualquer problema contém as sementes de sua solução, podemos esperar que uma atitude responsável da arquitetura perante as questões de reciclagem de água e permeabilidade do solo tenham um impacto significativo na melhoria da qualidade de vida urbana. O propósito principal do Stúdio Toró em abordar estas questões é o de iniciar um diálogo permanente com os arquitetos e com a sociedade no sentido de sermos muito mais ativos e empreendedores no trato das águas urbanas.

Vejamos os números: um lote regular de 12 x 30 m numa região onde chove 1600 mm recebe algo na magnitude de meio um milhão de litros de água de chuva por ano. Dado o consumo médio brasileiro de 150 litros por pessoas por dia, a quantidade de água que cai em um único lote é o dobro do consumo médio de uma família de quatro pessoas.

quantidade de chuva

Nas cidades em que água potável de boa qualidade (, filtrada, clorada e fluoretada) já está disponível, a água de chuva poderia ser usada apenas para usos não-potaveis como descarga de sanitários, irrigação de jardins plantas, lavagem de automóveis ou de pavimentos. Nesta mesma casa média de 100 m2, a água coletada apenas pelo telhado (160.000 litros) seria bastante para o consumo de um ano inteiro em usos não-potáveis. . Um reservatório subterrâneo simples de 2 x 3 x 3 metros (18.000 litros) é suficiente para armazenar água durante as chuvas de verão de modo a manter sua calçada limpa e suas plantas verdes durante os meses de estiagem de inverno. Com o custo atual em São Paulo chegando a R$5,70 por m3, a economia anual chega a R$912. Soluções de tratamento simples (para evitar bactérias e fungos) podem custar apenas R$ 0.16 por m3 ou R $25 para o volume inteiro aqui considerado. O custo do reservatório subterrâneo por exemplo seria recuperado entre 3 a 4 anos, não computando aqui aumentos futuros na tarifa de água e esgoto.

agua disponivel
 

Para reduzir ainda mais o volume descarregado na rede pluvial e aumentar a infiltração no solo, um único jardim de 36 m2 (6 x 6 m ou qualquer combinação de jardins menores que somando 36 m2) rebaixado 10 cm solo pode colecionar o volume inteiro de 10mm de chuva em poucas horas (80% dos dias se chuva anuais) que caem na propriedade. Dado que a maioria dos solos no Brasil têm uma taxa de infiltração variável entre 10 a 25 mm por hora, um sistema simples de jardins ligeiramente rebaixados para receber a água de chuva podem diminuir violentamente o volume de água que corre pelas ruas e pela rede publica, causando destruição e prejuízos nas áreas mais baixas.

Não obstante, durante a estação chuvosa ocorrem períodos de chuva forte por vários dias e nesse caso é necessário mais que um jardim para se alcançar os níveis de descarga próximos de zero devido à saturação do solo. Neste caso o uso de pavimentos permeáveis para garagens e calçadas pode ser muito útil. Existe uma variedade enorme de pavimentos em concreto, cerâmica e até mesmo asfalto (sem agregado miúdo) que aumentam a infiltração de água no solo ao mesmo tempo em que providenciam o conforto de uma área pavimentada para tráfegos mais intensos

suburbio norte americanosubúrbio norte-americano, densidade baixíssima causa problemas ao meio natural e inviabiliza transporte público

 
 

Além disso, o uso de micro-reservatórios de infiltração podem trazer o nível de recarga (e conseqüente redução de volume descarregado na rede pluvial) para níveis muito próximos aos da paisagem natural pré-urbanização. Estudos feitos por Araújo (1999) e Costa & Barbasa (2006) demonstram que os níveis de infiltração pre-urbanização podem ser alcançados em lotes de área em torno de 360m2 com apenas 1.3m3 de reservatório ou 76m2 de pavimento permeável. Em todo caso, o custo de implementação destes artifícios giram em torno de R $1,000.00 no caso de edificações existentes (menos ainda no caso de construção futura), muito pouco diante do prejuízo anual causado pelas enchentes e pelo efeito bolha de calor causado pela impermeabilização no solo.

As diferentes concepções urbanísticas da atualidade tem vantagens e desvantagens no que diz respeito ao manejo da água. .

brasiliabrasilia: boa densidade e boa permeabilidade, custo proibitivo

 
 

O subúrbio tradicional norte-americano, por exemplo, alcança graus altíssimos de permeabilidade e conseqüentemente tem nos seus gramados e jardins seu maior valor, mas é inviável do ponto de vista do transporte público e extremamente prejudicial ao ambiente natural por ocupar vastas porções de espaço com densidades muito baixas. Áreas como o Plano Piloto de Brasília parecem juntar o melhor dos mundos: densidade razoável, transporte público possível e alta permeabilidade do solo. Mas o custo (quem mora em Brasília sabe) é proibitivo para grande parcela da população. Por outro lado, a cidade tradicional sofre do problema oposto: altas densidades são necessárias para cobrir o custo da infra-estrutura e viabilizam a concentração de serviços tornando possível boas soluções de transporte publico e conseqüentemente menor consumo de energia em geral. No entanto, a taxa de ocupação é tão alta que não sobra quase nada de espaço para infiltração de água no solo, causando sobre-aquecimento devido a falta de evaporação e enchentes sempre que chove forte.

cidade tradicionalcidade tradicional: superficie impermeabilizada

 
 

É exatamente na cidade tradicional que a responsabilidade individual pode fazer a diferença. Vejamos os números: Num quarteirão normal de 1ha (10.000m2) chega a cair 100 mil litros de água numa chuva de 10mm (muito comum diariamente durante o verão). Se o quarteirão estiver inteiramente impermeabilizado esse volume de água correspondente a 10 caminhões pipa vai todo imediatamente ladeira abaixo via rede pluvial ou escorrendo pela rua.

Como cada casa ou prédio pode fazer infiltrar toda a sua água de chuva com um canteiro de 6 x 6 m ou com 80m2 de pavimento permeável, gradativamente a taxa de infiltração de água de chuva pode ir voltando a níveis pré-urbanizacao a medida que cada lote se responsabilize pelo volume correspondente.

Ou ainda o poder publico juntamente com associações de bairro podem trabalhar no sentido de se instalar pavimentos permeáveis na próxima reforma da pracinha ou na própria rua nas áreas em que o transito for adequado (ruas de pouco movimento ou mesmo em avenidas movimentadas nas áreas de estacionamento junto ao meio-fio).

O importante é que é possível cuidar melhor da água e da cidade a partir dos esforços de todos.

solucao de permeabilidade com densidade

solução responsável: aumento da permeabilidade com canteiros, coleta de água de chuva para usos não-humanos, uso de pavimento permeável em áreas de trânsito leve